Produtos
Destaque

 

 

UMA CONFRARIA COM GRANDE CATEGORIA

Estava eu pensando naquele terrível espinhaço de concreto em que foi transformada a maravilhosa praia de Camboriú quando encostou uma van e nela embarquei. Uma ampla avenida nos levou a Itajaí e, em poucos minutos, um portão eletrônico deu passagem para um pátio cercado por muros altos.

O grupo entrou num elegante ambiente no qual já nos aguardava farta mesa com frutas secas e cristalizadas, queijos, pãezinhos, patês, nozes e castanhas portuguesas cozidas. Para abrir a sessão de degustação em grande estilo foram servidas iscas crocantes de enguia frita. A recepção foi regada ao champenoise Cave Geisse Brut.

Em poucos minutos o anfitrião ordenou o início do serviço de vinho, uma  degustação às cegas, na qual cada amostra apreciada recebia comentários para indicar a sua provável origem, já que cada uma provinha de um diferente país tradicional produtor. Todos concentrados, Celso, Jean Pierre, Orgalindo Bettú, Nazário, Brito, Ronaldo, Leônidas, Miguel, o anfitrião e este que escreve.

O primeiro vinho, um tintório de vermelho profundo, lágrimas intensas, fruta madura, castanha portuguesa, bananada, hortelã, menta, toques incisivos de madeira polimerizada da barrica, oferecendo final de boca agradável. Vinho para se guardar por mais tempo. O grupo acertou ao apontá-lo como um típico chileno: De Martino, Gran Familia, Cabernet Sauvignon, 2003, 14.5% de álcool, com passagem por barricas francesas.

O segundo vinho, um tintório lembrando a nanquim, corpo impenetrável, taninos de ataque forte, frutas bem maduras e compotas, corpo leve e refrescante, magro na boca, acidez saliente, alcoólico com leve toque adocicado, bom final-de-boca com sutil amargor. O grupo dividiu-se, levando alguns a apostar sobre sua possível origem italiana. Na verdade, um Quinta do Meão, vinho do Douro, 2000, 14.5% de álcool.

A terceira amostra mostrou uma cor âmbar e aromas de oxidação, vinho decaído e de corpo aguado. Foi desclassificado. Era um Valpolicella, DOC, 1992, 11%, um italiano que realmente não se destina à guarda.

A quarta amostra foi uma barbada! Um vinho de viva cor vermelho cereja, certa palidez, lágrimas abundantes, nariz animal com floral nítido de violetas, corpo magro, boca agradável e equilibrada. A amostra era do Nuits-Saint-Georges, 13%, um borgonha típico.

O quinto e último vinho, um corpo vermelho profundo, lágrimas intensas, aromas empireumáticos e de torrefação, frutas secas como ameixa preta e passas. Tratava-se do espanhol Prado Rey, 14%, Ribera del Duero.

 

 

 

 

 

HARMONIZAÇÃO TOTAL SOB FLUÍDOS PIRAMIDAIS EM ITAJAÍ

Um ousado empresário catarinense promoveu degustação especialíssima em sua adega construída sob cobertura piramidal, de medidas perfeitas, com proporcionalidade e posicionamento espacial em obediência à situação encontrada na pirâmide Quéops e em sua réplica do Louvre (Paris). Os que conhecem o espaço confirmam alguns detalhes interessantes, como a influência sobre o estado de espírito dos freqüentadores e sobre as condições físicas de substâncias como chocolate (que se transforma numa espécie de  polvilho) ou como um ovo que, mesmo se quebrado não apodrece, simplesmente liofilizando-se!

Foram servidos palitos de lula crocante e bacalhoada à portuguesa, ambos pratos de grande requinte, companheiros ideais para os grandes vinhos portugueses oferecidos.

A harmonização teve início com a abertura de uma garrafa magnum de Callabriga, 13%, 1999, Douro, vinho vermelho rubi escuro, lágrimas copiosas, nariz complexo puxado por frutas maduras, como ameixa preta, e por especiarias, como canela, cravo, menta e pimenta preta, além de toques de terra molhada e sous-bois. Elegante na boca, onde os aromas retornam com maior intensidade do buquê.

O segundo vinho foi o Tapada de Coalheiros, 13%, 1997, Alentejo, cor evoluída na qual predomina um âmbar, cor de melado, aromas de bananada, fumo de corda e figo em calda. Na boca, associando-se aos aromas anteriores, emergiu um gosto vegetal lembrando casca de melancia. Mostrou evolução muito interessante na taça.

A amostra que se seguiu foi um Pedra Cancela, 13.5%, 2003, varietal de Touriga Nacional, vermelho escuro, vinho mais fresco lembrando bolo de frutas e baunilha, frutas exóticas como jabuticaba e pinha.

Na seqüência, um emblemático Pera-Manca, 14%, 2003, Trincadeira e Aragonez, Adega Cartuxa, Évora, Alentejo, corpo vermelho granada, lágrimas intensas, ataque franco ao nariz, trazendo especiarias como canela e pimenta preta, frutas desidratadas como ameixa preta seca e figo rami, odor de terra, tabaco e chocolate. Boca complexa, com taninos firmes e macios, equilibrada e de longa persistência. Vinho carnudo e de textura aveludada.

O anfitrião, enófilo de profundos conhecimentos, guardião de verdadeiras relíquias em sua adega, que inclui vinhos de colheitas anteriores a 1900, sensibilizou-se com o entusiasmo do pequeno grupo e serviu outra garrafa de Pêra-Manca, 2003, fazendo confronto com um Pêra-Grave, 13.5%, 2006, envolvidos em histórias comuns.

O Pêra-Grave é elaborado a partir de uvas de São José de Peramanca – vinhedos cuja história remonta ao século XV, tempos em que o Brasil sequer existia! Diz o rótulo que  a Capela de São José de Peramanca foi construída em terras realengas onde, durante centúrias se havia experimentado, com frutos celebrizados, o vinho de Peramanca, que é citado nas crônicas quinhentistas e se exportava largamente, nas esquadras portuguesas em demanda das terras ultramarinas (Espanca). Referida por D.João II em 1488 numa carta da Câmara de Évora. No fim do século passado o vinho Pêra-Manca, propriedade de J.Soares, teve grande projecção pela sua valiosa presença em concursos internacionais, tendo obtido um invejável conjunto de prêmios, salientando-se as medalhas de ouro de 1897 e 1898.

Conta ainda o anfitrião que os vinhedos da família proprietária foram passados para posse coletiva e a Fundação Eugênio de Almeida registrou a denominação Pêra-Manca.  Em contraponto à apropriação do nome pela cooperativa, o rótulo Pêra-Grave é uma iniciativa da família (Pêra-Grave Sociedade Agrícola Unipessoal Lda) para resgatar sua história de proprietária  secular do vinho daqueles vinhedos.

Bem, acostumado a degustar o Pêra-Manca em muitas oportunidades, tenho por esse vinho especial preferência. Na degustação cruzada dos dois Pêras, apesar de apreciar muito o super-alentejano Pêra-Grave (Aragonez, Trincadeira, Cabernet Sauvignon e Alfrocheiro), minha avaliação julgou como melhor o Pêra-Manca (Aragonez e Trincadeira). Para tirar a prova final, somente com novo convite do perfeito anfitrião para outras provas em terras catarinenses !


 

Área Administrativa
TWC Tecnologia em Internet